quarta-feira, 10 de setembro de 2008

PT & Esquerdas

Esquerda acomodada: PT e pachorra.
Esquerda adesista: PT e pretexto.
Esquerda agitadora: PT e passeata.
Esquerda aeronáutica: PT e pouso.
Esquerda avícola: PT e pinto.
Esquerda aventureira: PT e perigo.
Esquerda automobilística: PT e pista
Esquerda água com açúcar: PT e placebo
Esquerda agrícola: PT e plantio.
Esquerda assídua: PT e presença.
Esquerda arqueológica: PT e primata
Esquerda arquitetônica: PT e pilotis.
Esquerda arcaica: PT e pangaré.
Esquerda ambiciosa: PT e poder.
Esquerda alerta: PT e prontidão.
Esquerda aética: PT e pilantra.
Esquerda artística: PT e poesia.
Esquerda bucólica: PT e palmeiras
Esquerda brega: PT e pão doce.
Esquerda burocrática: PT e pacote.
Esquerda circence: PT e picadeiro.
Esquerda chic: PT e poire.
Esquerda cortesã: PT e palácio.
Esquerda conclusiva: PT e pronto.
Esquerda calculista: PT e prós e contras.
Esquerda cinematográfica: PT e projeção.
Esquerda culposa: PT e pecado.
Esquerda competitiva: PT e podium.
Esquerda corporativa: PT e patota.
Esquerda clientelista: PT e porteira.
Esquerda cética: PT e prova.
Esquerda complicada: PT e prolegômenos.
Esquerda culinária: PT e panqueca.
Esquerda ciclística: PT e pedal.
Esquerda cuidadosa: PT e peneira.
Esquerda compassiva: PT e perdão.
Esquerda corrupta: PT e propina
Esquerda curiosa: PT e pergunta.
Esquerda cósmica: PT e planeta.
Esquerda contraditória: PT e paradoxo
Esquerda cansada: PT e pausa.
Esquerda drogada: PT e pico.
Esquerda detalhista: PT e pitoco.
Esquerda doutrinarista: PT e piolho.
Esquerda denuncista: PT e panfleto.
Esquerda delicada: PT e pelica.
Esquerda dogmática: PT e pré-moldados.
Esquerda devassa: PT e putas.
Esquerda decidida: PT e peito.
Esquerda demagógica: PT e Pinóquio.
Esquerda dialética: PT e processo.
Esquerda eleitoral: PT e palanque.
Esquerda ecológica: PT e plantas.
Esquerda esquemática: PT e prato feito
Esquerda eventualista: PT e point.
Esquerda etílica: PT e pinga.
Esquerda epistolar: PT e PS.
Esquerda eclética: PT e patrão.
Esquerda evangélica: PT e pastor.
Esquerda escatológica: PT e pus.
Esquerda escrachada: PT e PQP.
Esquerda esquemática: PT e padrão.
Esquerda equilibrada: PT e prumo.
Esquerda emocional: PT e pulsão.
Esquerda feminista: PT e paridade.
Esquerda festiva: PT e pagode.
Esquerda flatulenta: PT e pum.
Esquerda fálica: PT e pênis
Esquerda futurista: PT e prognóstico..
Esquerda futebolística: PT e placar.
Esquerda formalista: PT e protocolo.
Esquerda freudiana: PT e psicanálise.
Esquerda frentista: PT e ponte.
Esquerda fútil: PT e pompons.
Esquerda fóbica: PT e pavor.
Esquerda gráfica: PT e página.
Esquerda geométrica: PT e polígonos.
Esquerda gastronômica: PT e petisco.
Esquerda gay: PT e purpurina.
Esquerda hipocondríaca: PT e plasil.
Esquerda humorística: PT e piada.
Esquerda hilária: PT e Pateta.
Esquerda higiênica: PT e pia.
Esquerda humanista: PT e pessoa.
Esquerda hedonista : PT e prazer.
Esquerda infantil: PT e pipa.
Esquerda índia: PT e pajé.
Esquerda insistente: PT e prévias
Esquerda insegura: PT e pendências.
Esquerda impotente: PT e prótese.
Esquerda institucional: PT e planalto.
Esquerda jornalística: PT e pauta.
Esquerda lúdica: PT e parque.
Esquerda masoquista: PT e plenária
Esquerda militarista: PT e pelotão.
Esquerda messiânica: PT e paraíso.
Esquerda matemática: PT e pi.
Esquerda mitificadora: PT e pedestal.
Esquerda mecanicista: PT e parafuso.
Esquerda megalomaníaca: PT e píncaro.
Esquerda maquiavélica: PT e perfídia
Esquerda musical: PT e piano.
Esquerda mortuária: PT e pêsames.
Esquerda missionária: PT e profeta.
Esquerda misteriosa: PT e porão.
Esquerda mística: PT e promessa.
Esquerda materialista: PT e Prometeu.
Esquerda macrobiótica: PT e pão integral
Esquerda marítima: PT e porto.
Esquerda moderna: PT e progresso.
Esquerda nacionalista: PT e Petrobrás.
Esquerda negra: PT e palmares.
Esquerda naturalista: PT e paisagem.
Esquerda narcisista: PT e pavão.
Esquerda nepotista: PT e primos.
Esquerda obreirista: PT e pá.
Esquerda obesa: PT e papada.
Esquerda ortopédica: PT e postura.
Esquerda otimista: PT e promessas
Esquerda oratória: PT e palavra.
Esquerda ordenadora: PT e pulso.
Esquerda ornitológica: PT e passarinho.
Esquerda obsessiva: PT e programa.
Esquerda psiquiátrica: PT e pinel.
Esquerda poligâmica: PT e paquera.
Esquerda periférica: PT e palhoça.
Esquerda pacifista: PT e pomba.
Esquerda pecuária: PT e pasto.
Esquerda pedagógica: PT e Paulo Freire.
Esquerda propagandística: PT e pregão.
Esquerda puritana: PT e pecado.
Esquerda pragmática: PT e produto.
Esquerda pictórica: PT e pincel.
Esquerda pediátrica: PT e pimpolho.
Esquerda prevenida: PT e preservativo
Esquerda pontual: PT e ponteiros.
Esquerda prolixa: PT e preâmbulos.
Esquerda podóloga: PT e palmilha.
Esquerda pioneira: PT e picada.
Esquerda patriarcal: PT e prole.
Esquerda pessimista: PT e passivo.
Esquerda puritana: PT e pudor.
Esquerda porralouca: PT e pipoco.
Esquerda programadora: PT e planilha.
Esquerda do pano verde: PT e poquer.
Esquerda religiosa: PT e Pai Nosso.
Esquerda repetitiva: PT e papagaio.
Esquerda ribeirinha: PT e palafita.
Esquerda ressentida: PT e perdas.
Esquerda riponga PT e peircing
Esquerda repressiva: PT e polícia
Esquerda reprodutora: PT e parto.
Esquerda rural: PT e posseiro.
Esquerda requintada: PT e pérola.
Esquerda reticente: PT e poréns.
Esquerda racionalista: PT e premissas.
Esquerda realista: PT e planície.
Esquerda reincidente: PT e Programa
Esquerda stalinista: PT e porrada.
Esquerda sisuda: PT e protocolo.
Esquerda surfista: PT e prancha
Esquerda sertaneja: PT e poço.
Esquerda superficial: PT e paetês.
Esquerda saudosista: PT e passado.
Esquerda sádica: PT e pesquisa.
Esquerda sociológica: PT e pirâmide.
Esquerda teórica: PT e paradigma.
Esquerda teatral: PT e platéia.
Esquerda terrorista: PT e petardo.
Esquerda tradicionalista: PT e papai com mamãe.
Esquerda televisiva: PT e plim-plim.
Esquerda turística: PT e passaporte.
Esquerda turfística: PT e páreo.
Esquerda utilitarista: PT e proveito.
Esquerda ufanista: PT e Panteão
Esquerda umbandista: PT e pai de santo.
Esquerda volúvel: PT e partida.
Esquerda vaidosa: PT e perfume.
Esquerda vacilante: PT e pêndulo.
Esquerda zoológica: PT e pica-pau.
Esquerda zen: PT e Paz

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

DPL: um novo mal

Expressão típica da pós modernidade, a Depressão Pós Lula – DPL é um novo tipo de doença mental que vem fazendo vítimas no Brasil. Tratando-se de uma novíssima expressão de morbidade, com incidências registradas a partir de 2004, os especialistas ainda se encontram conceitualmente desapetrechados para o seu tratamento. Emergencialmente, os psiquiatras têm recorrido a medicamentos e procedimentos próprios aos casos de depressão e síndrome do pânico.
Os psicólogos têm preferido a utilização das técnicas da análise transacional e do psicodrama, recomendando aos seus pacientes que procurem tirar férias ou licença, deslocando-se para recantos afastados, onde não tenham acesso a noticiários ou meios de comunicação de qualquer espécie. Isto porque, foi constatado que os estados de crise dos portadores de DPL se manifestam, sempre que são atingidos por informações ligadas a conflitos na base aliada do governo federal, contendas interministeriais e pronunciamentos de representantes do FMI e dos banqueiros.
Há o caso de um paciente que foi socorrido em estado de choque, apresentando uma profunda crise de identidade, murmurando repetidamente: “ Quem sou eu? Quem sou eu?” Na anamnese foi identificado como incidente traumático o momento em que, assistindo ao Jornal Nacional, ele defrontou-se com o senador Sarney sendo tratado por um destacado petista como “Companheiro Sarney”.
Outro paciente de DPL entrou em crise profunda quando, também por via televisiva, assistiu a parlamentares da ala esquerda do PT fazerem denúncias e darem votos semelhantes aos dos representantes do PFL. Depois disto ele perdeu o senso de direção, começou a confundir todos os sinais de trânsito e terminou provocando um acidente. Em seguida deixou de fazer qualquer tipo de movimentação lateral, caminhando sempre em frente. Além disso, esqueceu se era destro ou canhoto e se fixou numa postura de braços cruzados no peito, impedindo-se de qualquer gesto com as mãos.

Está constatado que a DPL é uma neurose (ou psicose) essencialmente política. Para o seu equacionamento, os pesquisadores partem das contribuições teóricas e metodológicas acumuladas em torno do tópico Esquerda Psiquiátrica. Os estudos se direcionam para a abordagem destes dois contrapontos: Denuncismo categórico versus Cupulismo Multifacético; Imediatismo Extremado versus Moderação Radical.
Já se concluiu pela necessidade de desdobrar os estudos da DPL nas suas vertentes intra-poder e extra-poder, uma vez que, na recorrência ao apoio terapêutico, tem-se registrado o comparecimento equivalente de pessoas que atuam dentro e fora das estruturas governamentais.

Foi criada a organização não-governamental SOS DPL, que abriga a Articulação dos Depelistas Anônimos - ADA. A ong está organizando um Seminário para aprofundar o estudo do novo mal e fez um pedido de patrocínio ao Ministério da Saúde.
Foi solicitada a presença de representantes da ONU, para que se investigue se o quadro clínico da DPL já ocorreu ou ocorre noutros países, restando a possibilidade de a doença ser incluída no catálogo da Organização Mundial de Saúde.
O SOS DPL apelou ao FMI para que as despesas ministeriais com o Seminário não sejam consideradas nos cálculos para o estabelecimento do percentual do superavit primário.

A Greve dos Psicólogos

Marcelo Mário de Melo



Decididos a entrar em greve, os psicólogos achavam importante que o movimento fosse desencadeado juntamente com os psicanalistas. Mas os primeiros passos nesse sentido não foram fáceis. Havia uma resistência não declarada dos psicanalistas, preocupados em não serem identificados como psicólogos. A seu ver, e recorrendo a uma hierarquização eclesiástica, se eles pudessem ser considerados padres, cônegos, monsenhores, bispos, arcebispos, cardeais ou mesmo papas, os psicólogos não passariam de oblatos ou diáconos. As sessões de análise da greve se multiplicavam entre as representações dos psicólogos e dos psicanalistas, sempre rodando em círculos, como se na procura de algum incidente traumático fugaz e de difícil identificação. Mas, finalmente, se chegou ao acordo entre os dois segmentos, independentemente das suas diferenças e introjeções de status. A greve seria identificada como dos psicólogos e dos psicanalistas. Foi esta a fórmula habilidosa encontrada para manter a unidade e as distinções.

Desencadeada a greve, os psicólogos e psicanalistas contaram com o apoio de uma parte dos psiquiatras. Outra parte não se solidarizou, porque não aceitava a própria existência daqueles profissionais. No seu entender, eles não passavam de “padres sem batina”, que lhes tinham arrebatado uma parte da clientela. Por sua vez, os padres mais antigos ocuparam os púlpitos em virulenta campanha, apelando para que não fosse atendida nenhuma reivindicação dos grevistas. “Depois que os psicólogos e psicanalistas passaram a existir – diziam eles -, os confessionários se esvaziaram”. Mas vigários modernosos e negocistas não concordaram com isso, afirmando que o problema tinha ocorrido devido à falta de um marketing religioso arrojado. “Se tivéssemos desencadeado uma ação publicitária permanente, ressaltando o caráter gratuito do nosso atendimento no confessionário, dramatizando o tormento do sentimento de culpa e deixando bem claro que nós, padres, detemos com exclusividade o poder da penitência e do perdão, atributo que os psicólogos e psicanalistas não possuem, a situação não seria esta. Fomos incompetentes na administração da franquia divina, não soubemos fidelizar a clientela e, agora, estamos correndo atrás do prejuízo”. Outros integrantes da comunidade dos padres se manifestaram solidários à greve. Uns, dizendo que para um ser humano conviver com toda a sorte de problemas e encucações derramados na intimidade de um confessionário, mesmo tendo procuração divina, somente com apoio terapêutico. Outros, afirmando ser impossível suportar o esvaziamento do confessionário sem recorrer à intimidade da terapia, que administrava a falta e propiciava um clima semelhante.

Outras tendências religiosas se manifestaram, engrossando o caldo da confusão. Pais e mães de santo, babalorixás e ialorixas de todas as casas, acompanhados de pajés de todas as tribos, ocuparam as ruas em noitadas de toques, oferendas, despachos e pajelanças, reivindicando serem reconhecidos como psicoterapeutas. Acrescentaram que possuíam franquias nacionais e internacionais de deuses afro-brasileiros, africanos, tupi-guaranis e latinoamericanos. Seguiram-se as manifestações dos capoeiristas e iogues, exigindo o seu reconhecendo como terapeutas do corpo e atraindo com objetivo idêntico os representantes de maracatus, afoxés e uma infinidade de grupos de dança e luta marcial.

Depois de uma semana de greve, os clientes dos psicólogos e psicanalistas exigiram uma trégua para serem atendidos. Como não obtivessem uma resposta, rebelaram-se e começaram a promover nas ruas um ruidoso quebra-quebra de divâs e sofás, acompanhado de rasga-rasga de almofadas, tatames e tapetes. Os fabricantes e revendedores de móveis e almofadas exultaram com a iniciativa e infiltraram no movimento uma série de agentes, estimulando destruições mais amplas, incluindo mesas, estantes, toalhas, lençóis etc.

Ante a cobrança por algum atendimento durante o processo grevista, os psicólogos e psicanalistas argumentaram que agora não tinham mais divâs, sofás, nem almofadas, tatames e tapetes disponíveis. Os pacientes apresentaram a solução alternativa do atendimento nos bancos de praça, que passaram, imediatamente, a ocupar. Isto provocou a reação dos namorados e dos mendigos, que afirmaram serem os usuários mais antigos do espaço e não admitirem, agora, perde-lo por causa da greve. A situação ia degenerar em conflito, com a entrada em cena dos desocupados e dos malandros, solidários com os namorados e mendigos. Antes que eles pudessem tomar qualquer iniciativa, porém, todas as praças foram ocupadas por forças policial-militares.

Mas essa intervenção, que se apresentou como uma forma de evitar violências, passou a ser o centro de uma complicação ainda maior. Obrigados a cumprir a função de vigias de praça, os policiais se sentiram diminuídos e, afetados na sua auto-estima, foram tomados por uma depressão e uma regressão generalizadas. Soldados, cabos, sargentos e oficiais de todas as estrelagens eram vistos acabrunhados nos cantos, prostrados em posição fetal, tomando cachaça na mamadeira, ciscando no chão, falando como bebês, gritando por papai e mamãe, brincando de bang-bang e de tiro ao alvo com os revólveres. Nessa brincadeira começaram a se multiplicar os feridos e os cadáveres, para o espanto e o maior desespero dos policiais infantilizados, que soltavam as armas e caiam em pranto, desesperados. Convocadas tropas do exército, da marinha e da aeronáutica, os policiais foram alvejados com sedativos, desarmados e recolhidos.

No decorrer da greve surgiu um fenômeno natural que intrigou a comunidade científica, notadamente os astrônomos e os meteorologistas. Desde que as praças passaram a ser ocupadas pelos clientes dos psicólogos e psicanalistas, a lua, simplesmente, deixou de aparecer, como se estivesse prestando solidariedade aos namorados e mendigos. Coisa que, para alguns defensores da influência dos ciclos lunares no comportamento animal e humano, não deixava de trazer um aspecto positivo:
– Já pensaram numa greve doida dessas rolando na força da lua, com esse monte de gente pirada sem nenhuma assistência? A natureza sabe o que está fazendo.

Enquanto isto, desenvolvia-se no meio dos grevistas um grave problema político-psicológico. Uma parte dos psicólogos e psicanalistas passou a apresentar o sintoma da contra-transferência, parecido com o fenômeno da transferência afetiva que ocorre no paciente, em relação ao analista. Os terapeutas começaram a se colocar como pacientes e a incorporar suas reivindicações de atendimento, vivendo uma profunda crise de identidade, em alguns casos apontando para verdadeiras cisões esquisofrênicas. Alguns saíram dos piquetes grevistas e se incorporaram à legião dos clientes reivindicantes. Outros, embora sem chegar a tais extremos, apresentavam uma certa duplicidade de comportamento e alguma identificação com os clientes, pelo fato de também se submeterem a processos de análise ou psicoterapia.

Na área militar, a crise se aguçou profundamente. A depressão e a infantilização avançaram sobre os novos contingentes, com a elevação dos registros de ferimentos e mortes, devido às brincadeiras de bang-bang. Mas os soldados infantilizados de tendências normóides se deliciavam em brincadeiras nas ruas, numa alegre parceria com a garotada. Os do exercito brincando de marcha-soldado, os da marinha construindo barquinhos de papel, os da aeronáutica fazendo aviõezinhos e pipas. Esta situação levou a que a greve dos psicólogos e psicanalistas fosse considerada assunto de segurança nacional, que exigia uma solução ultra-rápida. E se desenvolveram as pressões de todos os lados para que o movimento fosse encerrado.

Entre as lideranças dos grevistas, uma acirrada polarização era capitaneada por duas tendências principais. Os psicanalistas achavam que a greve tinha-se tornado um fenômeno muito complicado, sendo necessário fazer uma pausa, analisar mais a situação e, com muito cuidado, programar os passos seguintes. O pessoal da análise transacional, os bioenergéticos e os biodançantes eram contra a suspensão e propunham mais movimento e mais ação. Foi marcada uma assembléia geral num estádio, para se aprofundar as propostas e se chegar a uma conclusão. Paralelamente, seria realizada uma Feira de Psicologia e Psicanálise, onde todos poderiam vender o seu peixe e pescar clientes.

Na Feira havia ofertas para todos os gostos. Era uma infinidade de estandes, barracas e tendas, com consultórios improvisados, onde se realizavam entrevistas e sessões para captação de novos clientes, garantindo-se o atendimento à clientela tradicional. Os psicanalistas se situaram numa ala diferenciada, contando com o patrocínio de uma empresa moveleira que acabara de lançar um novo tipo de divã: o Doctor Freud. Representavam-se as sub-alas dos kleinianos, yunguianos, lacanianos, reichianos, carusianos, winicottianos. Os psicólogos ocupavam uma área imensa e repleta de subdivisões. Os gestaltistas, analistas transacionais e rogerianos se apresentavam em três grandes estandes. Seguiam-se bioenergética e biodança, com o patrocínio do Biotônico Fontoura, que criou também a seção Biotudo, onde foram distribuídos: psicodrama, yoga, aromaterapia, florais de Bach, massagem ayuvérdica, ritmoprática, transpessoal, terapia de vidas passadas, projeciologia, meditação transcendental, programação neurolinguística, reiki, feng-shui, grito primal, sexercícios e dança do ventre. A única nota dissonante na organização do evento foi a instalação da barraca da biodança vizinha à da meditação transcendental, gerando uma gravíssima incompatibilidade sonora inicial, somente superada com a posterior relocalização.

Paralelamente à Feira, desenvolviam-se as discussões de avaliação da greve, suas complicações e seus rumos. Um psicanalista defendeu o encerramento:

- A situação está tão confusa, que se a gente ajudar a encontrar solução para todas as complicações surgidas a partir desta greve, já será uma vitória.

Outro grevista contra-argumentou exaltado:

- Nada de recuar. Só encerraremos a greve quando todas as nossas reivindicações forem atendidas.

Amplamente aplaudido, ia alinhar as reivindicações, para refrescar a memória dos manifestantes, mas parou estatelado e mudo, como se tivesse visto um fantasma. Depois de mais de um minuto nesse transe, desesperado, recuperou a voz e apelou para a platéia:

- Deve ser o estresse da greve. Me deu um branco e não consigo me lembrar das nossas reivindicações. Peço a ajuda de outro companheiro.

O grevista mais próximo subiu à tribuna, mas também permaneceu estático, sem se lembrar de nada. Todos começaram a se olhar uns para os outros, com ares de espanto e apelo. Depois de um grande silêncio, alguém diagnosticou:

- Deu um branco coletivo. Ninguém se lembra das nossas reivindicações. É amnésia grevista generalizada.

Passada a estupefação inicial, o coordenador da assembléia declarou que continuavam abertas as inscrições para os falantes. Um psicólogo se inscreveu e questionou:

- Mas como é que a gente vai poder continuar com esta greve ou encerrá-la direito, sem saber quais são as nossas reivindicações?

O orador seguinte respondeu à indagação:

- Isto não tem muita importância, porque greve é como terapia ou análise: a gente começa, mas nunca sabe quando vai terminar.

(2001)

Nas Ondas da Macromaldade

Achei na rua um envelope com um documento surpreendente. Trata-se de uma minuta sem assinatura e tem o título de “Contribuição à Congregação da Macromaldade. Sem comentários, passo a transcrevê-lo:

“A linha diretriz é fazer o mal sempre, segundo o princípio: desamai ao próximo como o masoquista a si mesmo. Mas nesse ofício, às vezes as pessoas se perdem no troco miúdo, ocupando o tempo em pequenas maldades que não saciam e as deixam frustradas e tensas. Nessa fase, vive-se para o varejo, sem seletividade e sem estratégia, empurrando-se com a barriga as maldadezinhas de cada dia, com desproporcionais exposições à ira pública.

Depois se amadurece e se chega a outro estágio. É quando se procura não somente, de modo compulsivo, fazer uma maldade por dia, ou qualquer maldade, mas realizar grandes maldades, com alvos escolhidos. Isto dá uma sensação de bem-estar tão profunda, um estado de relaxamento e leveza tão envolvente, que se pode até incorrer, sem sentimento de culpa, no pecado da bondade, realizando, aqui acolá, uma série de boas ações de pequeno porte. Coisas que colaboram com a nossa imagem e nos preservam ante a opinião pública.

Como a maioria da população é formada por pobres, miseráveis e carentes, essas pequenas bondades causam uma grande impressão e dão um perfil quantitativo cuja repercussão ultrapassa, aparentemente, as maldades realizadas. Por este expediente pode-se prosseguir exercendo com obstinação o ofício de fazer o mal com competência, profundidade, seletividade e apuro.

É claro que esta linha de atuação encontra resistência entre os integrantes da Congregação que possuem um viés tradicionalista e vivem engolfados na administração de maldades miúdas. Cegos ante os acidentes do caminho, não sabem abrir novas estradas e perdem a visão do objetivo maior, que é promover a maldade com graus elevados e crescentes de eficiência e largueza. Coisa que não se consegue com os seus métodos primários.

Um grande inimigo da estratégia maligna é o narcisismo. Tomado por ele, o agente do mal fica cego ante a luz dos refletores e se precipita em desencadear maldades ainda verdes, pelo prazer ansioso de demonstrar poder e se colocar em cena. Em troca dessa satisfação primária, prejudica as possibilidades e o prazer de produzir maldades mais maduras, marcantes e cruéis.

E aqui chegamos a duas questões fundamentais na estratégia maligna. Primeiro, não se deve pretender unir maldade e ribalta. O prazer de administrar o mal é um prazer sem partilha, recolhido e solitário, de quem olha sua obra do alto de uma torre e comprova os seus efeitos, consciente do seu poder, sem necessidade do aval de terceiros.

Em segundo lugar, não se trata só de fazer o mal, mas de fazer grandes maldades, que conduzam sem retrocessos ao território supremo da crueldade abrangente, esta sim, o ponto mais alto de todo um processo de amadurecimento e ascensão nas trilhas do mal, tão diversificadas, emaranhadas e indutoras da dispersão.

Aí se alcança o estágio e o status equivalentes aos dos lamas budistas na sua seara. É a plena condição de desligamento das maldades acessórias. A consciência suprema do mal cósmico. Uma sintonia fina com as energias malignas concentradas, pulsando no ego com força de vulcão, rapidez de raio e eficiência de bomba atômica. Só então se atinge o Anavrin, que constitui o contraponto adequado ao Nirvana budista.